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Os meus romanos, alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil", de Ina Von Binzer.


Por Fábbio Andrade
Em 27 de Julho de 2010

 

OS MEUS ROMANOS – ALEGRIAS E TRISTEZAS DE UMA EDUCADORA ALEMÃ NO BRASIL DE INA VON BINZER.

 

"Os meus romanos, alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil", de Ina Von Binzer, foi publicado em segunda edição pela Editora Paz e Terra em 1994, numa edição revisada e bilíngüe. A tradução está assinada por Alice Rossi e Luisita da Gama Cerqueira e os prefácios são de Paulo Duarte e Antônio Callado. Este livro, é redigido sob a forma de cartas romanceadas, mostra-nos a educação feita pelo preceptor aos filhos das famílias ricas e faz um curioso retrato do movimento social. Assim mostra-se como uma leitura agradável para os historiadores da educação, ávidos por novas fontes.

O romance epistolar narra à história de Ulla, jovem professora alemã que vem ao Brasil trabalhar. As cartas que ela escreve são dirigidas a Grete, sua amiga na Alemanha. A moça emprega-se em uma fazenda no interior de Minas Gerais, onde dá aulas aos filhos do fazendeiro. Passa por diversas situações de dificuldade, provenientes da diferença cultural existente entre os povos brasileiro e alemão. Sem ganhar o suficiente para pagar a passagem de volta e exposta ao estresse, a moça cai doente e muda-se para o Rio de Janeiro. Lá sua situação não muda muito, pois sofre em meio a uma cultura completamente diferente da sua.

Binzer, segundo Paulo Duarte, "faz um curiosíssimo depoimento da vida patriarcal do século retrasado" antes que ocorressem à abolição da escravidão (1888) e a proclamação da República (1889), isso é nos possibilita perceber a intensa agitação que antecede esses acontecimentos. A autora imigra para o Brasil, em 1881, Passa a trabalhar depois em São Paulo, e retorna a Alemanha em 1884. Durante todo o período em que aqui permanece, tudo observa com olhos críticos; tudo analisa e critica e faz comparações quase que absurdas com sua terra de origem, porém coisas boas acontecem com ela também a moça conhece um engenheiro inglês, por quem, embora não confesse, demonstra, nas cartas dirigidas a Grete, estar apaixonada. Mais uma vez a professora muda de emprego, dessa vez em uma fazenda no interior de São Paulo. Embora a casa onde se instala seja mais rústica e com menos conforto do que a residência da primeira família com quem trabalhou, a jovem adapta-se bem melhor, pois a esposa do fazendeiro fora criada por uma governanta alemã, demonstrando muita afinidade com essa cultura e, portanto, as duas mulheres se identificam imediatamente.Após alguns meses desse novo trabalho, a moça escreve a sua amiga alemã avisando que, brevemente, ela e o seu noivo, o engenheiro inglês, estarão contando pessoalmente as novidades, pois voltarão à Alemanha. Além disso tudo a autora nos dá um retrato da situação em que se encontra o país. Segundo ela: "Neste país os pretos representam o papel principal... Todo o trabalho é realizado pelos pretos, toda riqueza é adquirida por mãos negras... Na nossa Europa muito pouco se sabe a respeito da lei referente a esse assunto, e imaginávamos que a escravidão fora abolida. Mas não é assim.  Devemos ressaltar que não é verdadeira a afirmação de não existirem trabalhadores livres no país. Sua existência é confirmada por vários relatos do período; porém estes permanecem à margem do processo produtivo, devido, em parte, às condições climáticas, que não forçam os homens a acumularem e ter ambições. Os escravos libertos abandonam as fazendas, vivem como nômades e não se entregam ao trabalho regular. Em comparação com os trabalhadores de outros países, o trabalhador do Brasil apresenta características peculiares, que não lhe permitem compara- lós com trabalhadores norte-americanos, por exemplo, pois o brasileiro, assim que possível, abandona o trabalho e compra escravos.

Muitos autores do século XIX escrevem sobre o desleixo e a miséria da vida do trabalhador brasileiro. Este se confunde com os bichos e vive como eles, daquilo que a abundante natureza brasileira oferece: come frutas, raízes, caça, etc. Binzer descreve um passeio que faz pela fazenda São Sebastião, onde encontra uma grande parte de cana verde cortada e descobre que este estrago fora feito por "marrãos". Estes são escravos fugitivos ou vadios que não querem trabalhar e vivem "como selvagem embrutecido, matando e roubando tudo o que pode na vizinhança". Eles roubam tudo o que precisam e nunca plantam feijão ou milho para a alimentação. Tais quais os trabalhadores livres e escravos libertos, se contentam com pouco; e contanto que não morram de fome, para que trabalhar? Sua filosofia se resume em descobrir formas de poupar esforços - afinal, de qualquer jeito se vive!. Eles são incapazes de plantar um pé de couve no quintal, e os animais que criam, cavam a vida por si mesmos. Para ela, no país inteiro há um desinteresse pelo trabalho manual, seja ele de qualquer espécie, da indústria ou da agricultura. O trabalho agrícola feito pelos escravos é rudimentar podemos citar, por exemplo, o pouco aproveitamento do solo, que não recebe adubo, ele é utilizado até se exaurir a última seiva. Um dos costumes seculares é a utilização das queimadas, etc. Assim, a terra nunca é reaproveitada, basta queimar nova floresta para cultivo, pois grande parte do solo ainda permanece inculta. A agricultura não é diversificada, está voltada para um único produto, seja eles cana-de-açúcar ou café. Por isso parte dos alimentos tem que ser importada, juntamente com os produtos artesanais. O trabalho artesanal praticamente inexiste no país, tudo é importado: tecidos, calçados, vinhos... Esta questão não passa despercebida aos olhos de nossa educadora alemã.

A autora conhecia o café, pois foi preceptora em uma fazenda voltada para a sua produção. Essa cultura foi introduzida ao longo do Império e, entre 1825-1850, estendeu-se no Vale do Paraíba, no Estado do Rio de Janeiro, continuando seu caminho por São Paulo e parte do Estado de Minas Gerais. Tudo indica que a primeira fazenda em que Binzer morou seja no Vale, fazenda de café, com mais de 200 escravos esse é o desenrolar da história.

ANÁLISE CRÍTICA

 

É fato que a imigração é incentivada, à medida que o trabalhador brasileiro apresenta tantas resistências; mas não em número suficiente para substituir os escravos. Muitos brasileiros se preocupam em trazer o trabalhador livre e o escravo liberto para o trabalho regular. Esta obra se mostra homérica. Diante dos problemas enfrentados, como o "pouco amor" ao trabalho e a abundância da natureza dos trópicos, como forçar os brasileiros a trabalhar? Como abolir a escravatura e criar condições para sua substituição? Segundo Binzer, para abolir a escravatura seria necessário "criar uma classe operária", fato que será amplamente debatido.

A classe rica contrata os preceptores para educar seus filhos - para Binzer, um trabalho muito difícil, pois as crianças, filhos de republicanos, são muito diferentes das alemãs. Ela trabalha também num colégio interno para meninas no Rio de Janeiro e nota que as aulas são isoladas, que não há objetivos no trabalho da escola. A autora não faz nenhuma referência a escolas públicas, e, sabemos, que elas se apresentavam em número reduzido. Após a proclamação da República este quadro não mudará.

Referência Bibliográfica

 

BINZER, Ina von. Os meus romanos, alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994.

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